sexta-feira, 23 de maio de 2008

Fiódor Dostoiévski


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* Obras disponiveis no arquivo rar:

Fiodor Mikhailovich Dostoievski foi uma das maiores personalidades da literatura russa, tido como fundador do Realismo.

Sua mãe morreu quando ele era ainda muito jovem e seu pai, o médico Mikhail Dostoievski, foi assassinato pelos próprios colonos de sua propriedade rural em Daravoi, que o julgavam autoritário. Esse fato exerceu enorme influência sobre o futuro do jovem Dostoiévski e motivou o polêmico artigo de Freud: "Dostoiévski e o Parricídio".

Em São Petersburgo, Dostoiévski estudou engenharia numa escola militar e se entregou à leitura dos grandes escritores de sua época. Epilético, teve sua primeira crise depois de saber que seu pai fora assassinado. Sua primeira produção literária, aos 23 anos, foi uma tradução de Balzac ("Eugénie Grandet"). No ano seguinte escreveu seu primeiro romance, "Pobre Gente", que foi bem recebido pelo público e pela crítica.

Em 1849 foi preso por participar de reuniões subversivas na casa de um revolucionário, e condenado à morte. No último momento, teve a pena comutada por Nicolau 1o e passou nove anos na Sibéria, quatro no presídio de Omsk e mais cinco como soldado raso. Descreveu a terrível experiência no livro "Recordações da Casa dos Mortos" e em "Memórias do Subsolo".

Suas crises sistemáticas de epilepsia, que ele atribuía a "uma experiência com Deus", tiveram papel importante em suas crenças. Inspirado pelo cristianismo evangélico, passou a pregar a solidariedade como principal valor da cultura eslava. Em 1857 casou-se com Maria Dmitrievna Issaiev, uma viúva difícil e caprichosa. Dois anos depois retornou a Petersburgo. Em 1862 conheceu Polina Suslova, que viria a ser o seu romance mais profundo. Em 1864, viúvo de Maria, terminou seu caso com Polina e em 1867 casou-se com Anna Snitkina.

Entre suas obras destacam-se: "Crime e Castigo", "O Idiota", "O Jogador", "Os Demônios", "O Eterno Marido" e "Os Irmãos Karamazov".

Publicou também contos e novelas. Criou duas revistas literárias e ainda colaborou nos principais órgãos da imprensa Russa.

Seu reconhecimento definitivo como escritor universal surgiu somente depois dos anos 1860, com a publicação dos grandes romances: "O Idiota" e "Crime e Castigo". Seu último romance, "Os Irmãos Karamazov", é considerado por Freud como o maior romance já escrito.

Dostoiévski, Heidegger, Técnica e Ética

Fonte do artigo digitalizado: UFSC

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Dostoiévski, Heidegger, Técnica e Ética
Claudia Drucker
Universidade Federal de Santa Catarina

Dostoiévski e Heidegger não tentaram escrever uma teoria contemporânea nem do dever, nem da virtude. Talvez por isso, freqüentemente são apontados como exemplos de niilismo e fracasso moral. Mas a deficiência que Dostoiévski vê na ética do seu tempo é semelhante à que Heidegger encontra em todo pensamento que não leva a técnica em consideração. A ética é uma forma do niilismo. Na melhor das hipóteses, ela não dá uma resposta adequada para as questões mais importantes. Na pior, é ditada pela essência da técnica.

Dostoiévski - Os Irmãos Karamazov - 1879


Fonte do livro digitalizado: Projeto Democratizacao da Leitura

Fonte dos dados acerca do livro: Crítica Literária

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Sem dúvida um dos melhores, senão o melhor, romances que eu já tive o prazer de ler. Num dos trechos do livro Ivan questiona o porquê de deus permitir o sofrimento de uma criança(que ele, assim como eu, acredita ser inocente), ao ler tal trecho me senti "roubado", era como se Dostoiévski tivesse lido minha mente e colocado meus pensamentos na boca do Ivan ...

O mistério da existência

por Tiago Ferreira

Este foi o último grande romance de Dostoiévski (1879-1880), terminado pouco tempo antes da sua morte, em São Petersburgo (1881). Faz parte das sua obras maiores, juntamente com Crime e Castigo (1886), O Idiota (1868) e Os Possessos (1871-1872), todas elas escritas na fase final da vida, sem dúvida mais produtiva.

Radicalismos da boemia, impulsão dos sentimentos individuais, infortúnio dos pensamentos sociais, repúdio aos excessos moralistas da humanidade. Podem parecer retratações perturbadoras e conflitantes na mente de um único ser. Mas se quer encontrar todas essas indagações existencialistas e as contradições psicológicas que permeiam o cérebro humano, basta pegar em mãos o livro Os Irmãos Karamazov, complexo romance de Fiódor Dostoiévski.

Publicado dois anos antes da sua morte (1879), Os Irmãos Karamazov tem sua narrativa centralizada no ato do parricídio. Ação é conseqüência do pensamento. E, mesmo negando a acepção de psicólogo que muitos leitores e apreciadores de sua obra denominam, Dostoiévski traça um perfil minucioso, sem ser muito intricado, de cada personagem que faz parte do romance.

Fiódor Pávlovitch Karamazov é um velho sedutor e estúpido que não segue regras morais e só pensa na satisfação de seus desejos individuais. É pai de três filhos, dos quais nem dava atenção, chegando a cair no esquecimento da existência deles no período de suas infâncias.

Ivã Karamazov, filho mais velho, é o mais inteligente e questionador, porém ao mesmo tempo negligente e amoral. Tanto que é autor de ‘O Grande Inquisidor’, artigo que contesta a ideologia moralista e rompe as barreiras psicológicas da ‘normalidade’, indagando a inexistência de um ser superior. ‘Se Deus não existe, tudo é permitido’ é a finalidade de seu pensamento. Argumento que Smierdiákov toma como ponto de partida para cometer o assassínio de Fiódor Pavlovitch, que não o reconhecera como pai.

Aliéksiei Fiódorovitch Karamazov e Dmítri Karamazov são os outros dois filhos do velho boêmio. Aliéksiei, tratado como Aliócha no romance, é o mais novo e viveu grande parte de sua vida em um mosteiro, tendo como mentor um ancião moribundo e religioso. Aliócha é o personagem ‘heróico’, como alega Dostoiévski no prefácio de seu livro; apóia os irmãos, ajuda quem precisa e crê no divino. Apesar de grande fé, não contraria o niilismo de Ivã e acredita na inocência de Dmítri, culpado de assassinar o pai por disputarem o amor de Grúchenchka, que brincava com o sentimento de ambos.

A discussão do romance vai da existência individual no mundo à crítica ao pensamento hegemônico da sociedade. Cada personagem possui divergentes temperamentos e interesses, sem deixar de terem o tratamento dostoievskiano – entenda-se dramas mentais, capacidade analítica de interpretarem o cotidiano às suas maneiras, sutil perspicácia e vítimas de uma moral dominante.

Dostoiévski dá bastante importância às realidades dos irmãos Ivã, Dmítri e Aliócha a ponto de separar exclusivos capítulos retratando fatos que os permeiam, a influência de determinadas personagens e pensamentos em suas vidas e o temperamento situacional de cada um. Dmítri é impulsivo e violento. Aliócha, têmpero e complacente. Já Ivã, cético e imparcial.

No momento da morte de Fiódor Pávlovitch, Dostoiévski traça minuciosamente a chegada de seu filho Dmítri à sua casa, desenvolvendo o longo da romance até o fato transparecendo a teoria de sua culpabilidade no crime, mas sem deixar comprometedores vestígios de quem realmente foi o assassino. O escritor brinca com a narrativa, mesclando distúrbios interiores do ser humano com uma cronologia similar aos romances policiais, onde permanece o mistério do assassinato.

A complexidade de Os Irmãos Karamazov não está no grande número de acontecimentos sucessivos, mas na perspectiva ideológica de cada personagem, como encaram a realidade em que vivem e o sincretismo egocêntrico individual, que mistura a homogênea ideologia do público com a heterogeneidade particular.

O resultado dessa vasta síntese é uma estória atrativa que desloca uma linear corrente de pensamento, suscitando uma inevitável redargüição da família e religião, moral e ética, crime e punição, sendo contemporâneo sem deixar de ser clássico. Os Irmãos Karamazov, realista do começo ao fim, é uma obra tão ampla quanto a nossa existência. Não é a toa que é tido pelo gênio da psicanálise Sigmound Freud como “a maior obra de todos os tempos”.

Dostoiévski - O Grande Inquisidor - 1879


Fonte do livro digitalizado: Projeto Democratizacao da Leitura

Fonte dos texto acerca do livro: Vida Acadêmica

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Para esse livro/trecho selecionei um texto do Ricardo Gondim, evangélico que se desencantou com o "mundo evangélico" e desde então vem denunciando o circo que muitos líderes religiosos fazem nas suas "igrejas".

Como aprendi a gostar de Dostoiévski - 2/5/06

por Ricardo Gondim

Falaram-me bem do romancista russo Fiódor M. Dostoiévski, e eu, curioso, comprei Os irmãos Karamázov. A princípio, não acostumado aos nomes dos personagens, não gostei da narrativa. Mas logo, deliciei-me com Dostoiévski e, hoje, o considero um dos maiores escritores de todos os tempos.

Ivan, o personagem agnóstico da família Karamázov, era um grande inimigo do cristianismo. Para enriquecer seus argumentos e contestar seu irmão Aliócha, um crente genuíno, ele criou a historieta do Grande Inquisidor. Ivan imaginou Cristo voltando à terra pela segunda vez em Madri, durante a Inquisição.

Enquanto Jesus operava milagres curando e ressuscitando mortos, o cardeal da cidade, o Grande Inquisidor, reconheceu o Senhor e o prendeu. Na penitenciária, questionou Cristo para saber por que ele voltara. O diálogo tornou-se tenso e cheio de revolta: "És Tu, és Tu?". Não recebendo resposta, acrescentou rapidamente: "Não digas nada, cala-te. Aliás, que mais poderias dizer? Sei demais. Não tens o direito de acrescentar uma palavra mais ao que já disseste outrora. Por que vieste estorvar-nos?".

O sacerdote extravasou sua ira porque Cristo havia proposto uma liberdade diferente da pregada pela igreja. Raivoso, alegou que "foram necessários quinze séculos de rude labor" para restaurar o estrago feito por Jesus e devolver aos homens o que ele considerava a verdadeira liberdade. Diante de Cristo manietado, continuou mostrando que a religião possuía uma liberdade maior que a de Jesus: "Fica sabendo que jamais os homens se acreditaram tão livres como agora, e, no entanto, eles depositaram a liberdade humildemente a nossos pés". O Grande Inquisidor, a seguir, passou a ensinar para Jesus que seu maior erro foi acreditar que os seres humanos valorizam o livre-arbítrio. A igreja teria corrigido essa falha. Tanto ele como seus colegas de sacerdócio vinham se esforçando por suprimir a liberdade proposta por Jesus com o propósito de tornar os homens mais felizes.

O Grande Inquisidor acusou Cristo de haver fracassado na tentação do deserto. Ele só recusara a proposta do Diabo de transformar pedras em pão (Mt 4.1-11) para não privar a humanidade de experimentar verdadeira liberdade. Caso ele operasse o milagre, os homens teriam obrigação de se tornarem seus discípulos, pois a sobrevivência humana dependeria de futuras intervenções divinas. Jesus achava que estaria comprando a lealdade de seus seguidores a preço de pão. E a acusação do Inquisidor concentrou-se em mostrar a inutilidade dessa opção do Senhor, pois as pessoas não querem viver livres.

O Grande Inquisidor usa do mesmo argumento quando afirma que Cristo errara ao abdicar à prerrogativa de pedir que Deus o livrasse fazendo-o aterrissar suavemente caso se jogasse do pináculo do templo. Segundo o algoz sacerdote, era vão querer discípulos por amor. As pessoas desejam seguir a Deus em troca de milagres e maravilhas. Elas negociariam a liberdade pela segurança de um mundo previsível, sempre controlado pela constante intromissão de Deus.

O religioso ainda declara que Cristo cometera um monumental deslize ao recusar a oferta do Diabo de conquistar os reinos do mundo. Bastava que ele o adorasse por um instante e não haveria mais guerras, fomes ou injustiças no planeta. Os reinos pertenceriam a ele e a ordem estaria segura.

Ao ler Dostoiévski percebo tanto a universalidade como contemporaneidade de seu pensamento. A religião anda na contramão do ensino de Jesus quando promete um mundo sem percalços e sempre previsível. Quando Os irmãos Karamázov foi escrito, essa teologia utilitária, que promete dourar a pílula da vida, ainda não se difundira tanto, mas foi amplamente denunciada. Jesus não quer ser amado pelo que dá, mas por quem ele é.

Os evangélicos brasileiros precisam acordar para o cerne do Evangelho que não promete um mundo seguro, sem perigos e livre de sofrimentos. A boa notícia é que o Senhor se dispõe a nos acompanhar em qualquer circunstância. Ouve-se, com freqüência, entre os evangélicos que Deus dará tudo o que seus filhos pedirem se, prostrados, o adorarem. Cuidado! Essa frase foi proferida por Satanás.

sexta-feira, 16 de maio de 2008

Dostoiévski - O Idiota - 1867 e 1868


Fonte do livro digitalizado: Projeto Democratizacao da Leitura

Fonte dos dados acerca do livro: IG Educacao

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Dostoiévski é um compendio de todas as angústias, desesperos e incertezas de uma humanidade arremetida contra uma realidade massacrante, veemente e caoticamente industrializante, que não consegue resolver nem minimizar seus antigos problemas existencialistas e já se depara com uma outra gama de indagações e misérias impostas por uma crescente urbanização caótica. Dostoievski, assim como um Kafka ou um Joyce, reflete o aturdimento do homem perante a modernidade.


Em Dostoievski se agrupam ainda o descalabro de uma monarquia despótica, as maiores aspirações do povo russo (refletidas nos crescentes movimentos anarquistas e socialistas), sua saúde frágil e delicada abalada constantemente com suas crises epilépticas, sua compulsão e vicio do jogo, as perseguições dos credores, principalmente editores que lhe adiantavam pagamentos por obras que sequer estavam configuradas, morte prematura dos filhos, uma educação e infância pobres, uma tirania paterna contrabalançada pela doçura e compreensão maternas, um agudo sentido de sofrimento pelo povo rude, uma temporada de vários anos na prisão da Sibéria por envolvimento em um grupo anticzarista. Tudo embalado em um misticismo protocatólico particularmente russo, especificamente dostoievskiano.


Ler Dostoievski é mergulhar nos bruscos contrastes do ser humano. Ernesto Sábato, em sua obra "O Escritor e seus Fantasmas" cita Maurice Nodeau que afirma que "Um romance que deixe tal como era o escritor e o leitor é um romance inútil. É verdade. Quando terminamos de ler 'O Processo' não somos a mesma pessoa de antes (e com certeza muito menos Kafka depois de escrevê-lo)". Da mesma forma, não se entra impunemente em um livro de Dostoievski. O jornalista e editor da revista Cult, Manuel da Costa Pinto, comenta que "obras como 'Crime e Castigo' ou 'Ana Karênina' (Tolstói) reúnem em suas personagens e muitas vezes em uma única personagem todo o mosaico possível de acepções do humano: os abismos interiores de desejo e culpa, os determinismos materiais e a tentativa de transcendê-los social e espiritualmente, as utopias políticas e religiosas, a fronteira tênue entre sanidade e demência, lucidez e possessão".


Tudo isso está representado no personagem principal de "O IDIOTA", o Príncipe Míchkin semilouco, semi-idiota, meio santo, misto de Jesus Cristo e D. Quixote (essa, aliás, uma figura muito querida por Dostoievski). O simples fato de conseguir tornar uma tal personagem plausível, densa e complexa sem cair em esquematismos infantis e simplistas ou transformá-la em um boneco oco e vazio já demonstra um fantástico domínio da escrita (o que, como diz Paulo Bezerra em sua introdução, era justamente uma das maiores preocupações do autor).


Pois o Príncipe Míchkin cai como um cometa no meio da sociedade de Petersburgo. Por ele se agitam e transitam todas as vaidades, os egoísmos, a ganância, a luxúria. Seu rosto franco e sincero, seu olhar aparentemente tão ingênuo perpassam as mascaras, entende as almas ao seu redor. E sofre por elas.


O enredo é relativamente simples e raso (principalmente em comparação com a densidade filosófica do assassinato praticado por Raskólnikov e sua conseqüente autopunição moral, em 'Crime e Castigo' ou a discussão político-existencial de 'Os Demônios'). O Príncipe Míchkin volta para a Rússia após alguns anos se tratando na Suíça para receber uma herança que acabará com sua miséria financeira. A história serve como um condutor para a apresentação de mais uma vasta galeria de personagens dostoievskianos que representam os extremos possíveis, do sublime ao degradado, do patético ao iluminado. Desta forma, o príncipe encontra Rogójin, também recém-rico, que sacrificaria sua própria vida pela sua paixão e Gánia Ívolguin, que acredita que somente pela obtenção de dinheiro pode ser um humano completo.


As mulheres, como em toda a obra de Dostoievski possuem uma vitalidade e presença nunca antes alcançadas na literatura. Como não se impressionar pela nobre e altiva, e ao mesmo tempo terrena e concreta, Aglaia Iepántchin? Como não se apaixonar, do mesmo modo que Rogójin, por Nastácia Filíppovna, essa desconcertante síntese de pureza e maldade, a recorrente figura dostoievskiana da cortesã-prostituta-santa?

Dostoiévski - O Jogador - 1867



Fonte do livro digitalizado: Projeto Democratizacao da Leitura

Fonte dos dados acerca do livro: Shvoong.com

Fonte da carta: Lendo.org

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Esse é um trecho de uma curiosa carta que Fiodor Dostoiévski escreve à cunhada de Paris após contato com a roleta:

Durante quatro dias observei as mesas de perto. Havia ali centenas de jogadores, mas, palavra de honra, só duas pessoas sabiam jogar! Era uma francesa e um lord inglês. Entendiam do jogo e nunca perdiam, pouco faltando para rebentar a banca. Peço-lhe, não creia que eu estava radiante de alegria porque acabava de ganhar em vez de perder, que eu me julgue um grande conhecedor do segredo do jogo. Esse segredo, aliás, bem o sei, é o que há de mais simples e estúpido. É preciso unicamente domínio sobre si mesmo e, sejam quais forem as peripécias do jogo, a gente evitar o entusiasmo excessivo. Eis tudo. Esta regra impedirá você de perder, fazendo-lhe necessariamente ganhar.


O Jogador


Uma envolvente narrativa semi-autobiográfica em uma contundente auto-análise do (pior do) ser humano. Não é segredo que Dostoiévski foi, durante muito tempo, um jogador compulsivo, o que da o empuxo do ponto de partida deste romance.

Trata da estória de Aléxis Ivanovitch, um preceptor que é visto como palpiteiro e inconveniente apenas por permanecer fiel às suas próprias convicções e não concordar com as opiniões mesquinhas da alta sociedade com a qual precisa conviver.

Assíduo freqüentador dos cassinos locais, ele cria seus métodos e cálculos no intuito de fazer fortuna na roleta. Não "apenas" para isso, mas também para ter o prazer de quebrar a banca, de fazer com que todos os que o desdenharam passem a cortejá-lo, nem que seja só enquanto durar seu dinheiro.

Costuma jogar com certa parcimônia e algum senso de responsabilidade, evitando riscos desnecessários sempre que possível, principalmente quando joga a pedido de Paulina, sua musa inspiradora. Claro que isso não dura muito tempo, pois logo ele perde o bom senso, mais especificamente numa insólita noite em que Paulina dá a entender que precisa desesperadamente de dinheiro. Aléxis, então, não perde tempo: vai até o cassino e, em menos de uma hora, quebra a banca tal como sempre desejara, no ápice da narrativa.

As gloriosas páginas nas quais o leitor é levado a assistir as peripécias do jovem Aléxis na roleta são as mais delirantes e apetitosas. A empatia pelo personagem se torna gigantesca e faz com que o leitor deseje que ele caia em si e vá para casa antes que perca tudo. A audácia e o destemor que passam a controlar o jogador são transmitidas de forma direta e sem firulas por Dostoievski até o desesperançado desfecho, em que Aléxis cai em desgraça, não apenas por conta de seu vício, mas por conta do desprezo de Paulina.

Aléxis parece não se dar conta da degradação (tanto espiritual, quando financeira) que o atingiu, provavelmente por causa de seu orgulho, que o impede de enxergar sua ruína, mas não é suficiente para fazê-lo se reerguer. A missão cabe ao sr. Astley, velho amigo de Aléxis que ao reencontrá-lo, oferece-lhe ajuda, gentileza esta que é educadamente dispensada. Parece não haver mais salvação para o jogador.

Dostoiévski - Crime e Castigo - 1866

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Fonte dos dados acerca do livro: Armadilha Poética

Texto de: Beatriz Bajo

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Normalmente, o Armadilha Poética privilegia os novos autores, escritores contemporâneos ou aqueles que não estão freqüentemente nas primeiras prateleiras de bibliotecas e livrarias. Todavia, não resisti e precisei deixar registrada minha perplexidade em relação à leitura de um dos melhores romances que li. Evidentemente que muitos já devem ter usufruído esta maravilha de livro que mantém como original o título “Prestuplenie I Nakazanie”, escrito por nada menos que o russo Fiódor Mikháilovitch Dostoiévski.

Aqui em casa, houve um surto. Meu pai leu e ficou chocado. Enquanto ele devorava o segundo volume, minha mãe viu-se tentada a descobrir o motivo de tanta euforia. E eu, na minha corrida contra o que me aparta de conhecer todos os clássicos e contemporâneos e quaisquer outros títulos dos milhares de livros que gostaria de apreciar, debrucei-me sobre a trajetória de Rodion Românovitch Raskólnikov, quem protagoniza toda a trama.

O enredo gira em torno de Raskólnikov, um estudante que vive em São Petersburgo e enfrenta grandes dificuldades financeiras. Arriscando-se, inicialmente, como professor de línguas, Rodion é um jovem, como muitos, que possui grandes ideais, no entanto, não consegue encontrar meios para viabilizá-los.

Tal personagem arquiteta uma teoria que dicotomiza homens ordinários e homens extraordinários. Entre estes, estão, por exemplo, Napoleão e César. Tomado pela consternação de sua vida sem perspectiva, o estudante pratica um crime (planeja o assassinato de uma agiota), acreditando que a senhora é uma pessoa má, um “piolho”; conseqüentemente, ele estaria fazendo um favor à sociedade. Assim como os grandes homens da história, que foram assassinos absolvidos.

No entanto, sua teoria furou na medida em que ele se deu conta de que não era extraordinário, porque carregou o peso de uma culpa que reluta em não sentir, entrando num labirinto de amarguras que convivem com as angústias do delito e seus delírios e fracassos.

Dostoiévski conduz a trama com tanta precisão, que me senti, diversas vezes, admirando um quadro, porque há uma riqueza de imagens tamanha que posso ver os filhos de Marmieládov na cena em que este chega a casa e sua mulher o arrasta pelos cabelos, pela casa inteira, quando percebe que todo o ordenado foi gasto, novamente, com bebida:

A garota que dormia acordou e começou a chorar. O rapazinho que estava no canto não pôde conter-se e começou a tremer e a gritar, e cingiu-se contra a irmã, apavorado, como se estivesse quase para sofrer um ataque. A irmãzinha mais velha tremia, colada à parede, como a folha duma árvore (p.35).

Este e diversos outros acontecimentos inesperados que passeiam pelas ruas de São Petersburgo, entre becos e tabernas e diálogos instigantes, tudo recheado com discussões acerca do existencialismo, do niilismo, da fé e da manutenção da dignidade que se sobrepõe à vileza da alma humana. Vale a pena ressaltar a nota do tradutor sobre o nome Raskólhnikov:

Nome forjado de raskol, cisão. É evidente o propósito simbolista do autor. Criando este nome, quer mostrar, através da significação do étimo, o homem cindido, atormentado pela contradição, entre as exigências que ele faz à vida, à humanidade e a si mesmo, e a capacidade para realizá-las. (p.13).

Enfim, publicado em 1866, quase 20 anos após a prisão de Dostoievski por conta de reuniões subversivas que conspiravam o assassinato de Nicolau I, Czar da Rússia. Apesar de livrar-se da condenação à morte, o autor vivenciou a prisão e a pobreza em meio à epilepsia, perturbações psicológicas e crises religiosas que reverberaram no ânimo de Raskól.

Com mais de um século de existência, o livro permanece impressionando pela magnífica capacidade descritiva e narrativa das contradições humanas: “Quiseram falar, mas não lhes foi possível. Havia lágrimas nos seus olhos. Estavam ambos pálidos e abatidos...” (p.310) assim também eu estava quando finalizava as últimas páginas dessa experiência que me rendeu alguns pesadelos durante as madrugadas e uns escritos.

Por tudo isso é que recomendo urgente a companhia de “Crime e castigo”. Quem ainda não leu que corra, porque há um universo de inusitadas emoções a serem deflagradas tanto no livro como em si mesmo, dissecações de personalidades e descobertas a cada virada de página que sem dúvida irão fazer valer as palavras aqui escritas.